O cumpadre Marcelo entrou na casa dos 30! Parabéns pra ele. Falei outro dia aqui sobre o que penso de envelhecer então vou poupar o leitor sobre as virtudes que vêm com os anos. Além disso, o bicho tem todos os cabelos brancos - a profissão de jornalista não facilita! - então pra ele certamente um ano ou um ano menos...
Consegui comprar para ele um livro muito bacana: 1001 filmes para ver antes de morrer, de Steven Jay Schneider. De fato, um daqueles presentes que você dá a alguém torcendo para que um dia tenha um também. Muito bacana! E ele também achou isso quando abriu o pacote ontem.
"Você toma cerveja?" "Não quando estou com sintomas de febre amarela"
Essa foi minha resposta, mas, depois de um tempo em companhia do sempre etílico Chico, não resisti e tomei uns goles. E não é que os sintomas não passaram?
Eu explico: inventei de fazer uma viagem nesses últimos dias de férias e acabei tomando vacina contra febre amarela.
Alertado no posto de saúde sobre possíveis "sintomas de reação", cheguei a pensar em não tomar, mas aí consultei meu pai.
"Filho, ir para o mato sem tomar vacina de febre amarela é como trepar com piranha sem usar camisinha". Sabias palavras de um desavergonhado coroa. E convincentes. Tomei a bendita vacina e, cinco dias depois, me sentindo muito bem e sem nenhum incômodo, nem lembrava mais dela.
Pois é. Eis que no sábado me aparece uma autêntica ressaca sem motivo aparente. Dor de cabeça, na têmpora e sobre os olhos, acompanhada de uma sede descomunal.
Horas depois eu notei que a sede era, na verdade, uma febre de básicos 38 graus, que ganhou, até a tarde do domingo, a companhia de calafrios e crispações - acredite, meu horóscopo alertava sobre isso na semana passada.
Já era bem tarde no sábado quando me dei conta que a ressaca sem bebida prévia era, na verdade, a reação pra lá de atrasada da vacina.
No domingo, acompanhado durante todo o dia dos sintomas, passei a acreditar que tomar vacina para febre amarela, é, em princípio, adquirir uma febre amarela branda.
No final do dia já tinha certeza disso. As dores não passavam, as contrações musculares só aumentavam e a dor de cabeça não ia embora.
Parecia mesmo uma ressaca. E como dizem que pra isso o melhor remédio é outra cervejinha, acabei cedendo aos apelos do aniversariante e tomei umas... Para minha surpresa... Não passou.
Paciência. Nem tudo dá certo... Mas eu bem que tentei.
P.S.: O livro com a lista dos 1001 filmes é mesmo bem bacana e não vejo a hora de retornar à casa do cumpadre Marcelo e ler mais um pouquinho sobre os grandes clássicos do cinema. Eu queria ter dado a edição com a capa da antológica cena de Hitchcock que ilustra esse post. Mas por aqui a edição atual traz na capa Harrison Ford no papel de Indiana Jones. A escolha é bem boa, concordo, mas acho que até o Spielberg ia preferir Janet Leigh...
Não gosto de novelas. É fato. Mas "A favorita" é um caso à parte. Eu a odeio!
Cara, poucas coisas me irritam mais do que as personagens criadas para Cláudia Raia e Patrícia Pillar. E isso, porque, honestamente, quase não vejo. Aquilo é bizarro. Diálogos esdrúxulos, interpretações bisonhas. Uma apoteóse a estupidez e um insulto ao cérebro do telespectador.
Pois bem. Calor da porra à noite. Depois de ler umas boas páginas de "O jogo do anjo" - está muito bom, por sinal -, resolvo descer para a academia do condomínio.
Porra, entro na academia e dou de cara com um 'muleque', de uns 15 anos, levantando uns pesos sozinho e assistindo a, adivinha o quê?
Coma cara de pau que me é peculiar - quem conhece sabe - já intimei: "Porra, cara, vamos assistir a outra coisa?"
O garoto - ainda não sei se ele é mudo ou não entende português - guardou o peso, balbuciou uma merda qualquer e deixou o recinto. Melhor pra mim. Dedo no botão e escolho a MTV. Na verdade, outra porcaria, diga-se, mas diante da concorrência, ganha disparado da tal Favorita... Aliás, até o nome é bizarro. Favorita de quem, cara pálida?
Aquecido, parto para o supino, enquanto ouço João Gordo entrevistar Fernando Gabeira. Eles estão numa praia e além de um monte palavrões o Gordo até que arranca umas boas respostas do político.
Assim que montei o halter - amaldiçoando a economia do condomínio, que não comprou um suporte para apoio - entra um sujeito no recinto. Negão, alto e forte, com pinta de que curte academia. E suplementos, é claro, ninguém fica com o braço daquele tamanho comendo arroz-e-feijão... mas isso é outra história.
Na hora já pensei: com a ajuda dele posso por mais carga no halter, porque aí ele me entrega o halter já deitado. O suporte faz mesmo falta. Existe a possibilidade de lesão na lombar se você resolver levantar muita carga, erguendo o peso do chão...
Assim que olho para o cara, no intuito de pedir essa ajuda, ele dispara, antes mesmo de eu abrir a boca:
"O grande, você tá assistindo (sic) isso aí?"
João Gordo pergunta a Gabeira sobre tortura e eu imediatamente associo a palavra às intenções do camarada. Já deitado e trazendo o halter para o peito, puto da vida, eu me indignei, com a voz apertada pelo peso:
"Depende, cara. Se você não quiser por na novela pode mudar"
Aí ele emendou: "É! Queria ver a novela"
O marmanjo dava dois de mim, mas eu segurava uma barra de três quilos, com anilhas de 10 kg em cada ponta, então me sentia o super-homem.
"Cara, não vai rolar. Eu desci justamente para não assisitir a essa merda, que além de chata, subestima minha inteligência"
"Beleza. Eu também não gosto, mas é que todo mundo fica falando e eu acabei me interessando"
Sei... João Gordo terminou a entrevista com Gabeira, eu terminei a série de supino e o camarada continuou na esteira.
Desde que soube que a HQ Watchmen ia virar filme passei a aguardar com muita ansiedade. Ontem, fui a uma apresentação especial de cenas à imprensa e proprietários de salas de exibição. Fui em companhia do borther Waltão, já citado nesse blog.
No evento também foram exibidas cenas do próximo Star Trekk. Quando fui apresentado à série, ainda criança, não curti muito, apesar de gostar de ficção científica.
É que eu queria era ver porrada comendo e achei que Kirk e seus amigos falavam de mais e agiam de menos...
Pois bem, ação é o que não falta e, confesso, fiquei surpreso e ansioso pra ver esse filme também.
Quando a Watchmen, posso dizer que foi du caralho! Na verdade, era mais um post pra começar com a palavra sensacional, mas aí, o Waltão também escreveu no blog dele e depois que li o que ele disse, posso dizer, apenas, que assino embaixo!
Ontem fui visitar o RN. Esse é, por enquanto, o nome do rebento filho de um casal amigo. Na verdade, o pai é irmão do meu concunhado, entendeu? Ah, deixa pra lá.
O bebê ainda é tratado pela sigla de recém-nascido porque os pais ainda não chegaram a uma conclusão sobre o nome. Até aí, legal, mas se levarmos em conta que ontem era dia 7 de janeiro e a criança nasceu em 31 de dezembro... É pitoresco, né? E saber que no dia 2 a família seguiu para o sítio onde estavam outros parentes, para a programada viagem de férias, com o RN de dois dias de vida, então? Então, bem engraçado.
A cara do pai. Um autêntico Chris Griffin, sabe? Aquele pai sem-noção de A Family Guy? É um desenho politicamente incorretíssimo que no Brasil se chama Uma Família da Pesada...
Ah, se você não conhece precisa ver. É muito louco e divertido. Já passei um tempão em frente a TV rindo das piadas absurdas dessa família. Mas o mais legal é que e o pai do neném é um verdadeiro fã do desenho! E ontem, durante a visita, uma cerveja e um violãozinho, me mostra uma pasta em seu computador cheia de episódios do desenho...
Lá no meio, eu acho essa pérola que você vai assistir aí embaixo... Nem vou comentar. Humor refinado. Divirta-se e que Deus proteja o RN da versão brasileira de Chris Griffin. Ah, Pet, eu aguardo outro convite pra visitar o bebê maiorzinho – já com nome e sobrenome, eu espero! – e mais umas cervejas, violões e episódios do desenho!
Noutro dia me pediram uma listinha de coisas que li e gostei. Pois é... Agora essa lista é permanente. E com as capinhas dos livros... É ou não é sensacional?
Quando um amigo me mostrou o Orkut, há muito tempo, antes mesmo da febre que ele se tornou alguns meses depois, eu achei a idéia genial. Depois vieram outros tantos, de MySpace a Youtube, como se sabe. Gosto de todos eles, mas não me lembro mesmo de ter ficado tão empolgado como fiquei com o Skoob. Se você gosta de ler vai entender o que estou falando...
Ah, e além da lista do que já leu, você também pode fazer a lista do que QUER ler! É o fim daquelas listinhas escondidas na carteira para quando você for a uma livraria - geralmente você vai um milhão de vezes e nem lembra da lista entocada num canto obscuro da carteira...
Pois é. Eu fiz o perfil lá e coloquei vários livros que li - não adianta, você sempre vai ficar com a sensação de que está esquecendo algum...
Deixei de fora um ou outro, porque não encontrei no banco de dados e não tinha como incluir. Questão de tempo. E de popularização, já que são os próprios usuários que cadastram os livros. Mas tem de ter o exemplar em mãos, pois é obrigatória a inserção do número de ISBN. Eu até cadastrei alguns...
Você pode fazer resenhas dos livros, que são vistas na página de cada publicação e não só por aqueles que acessarem seu perfil. A idéia é mesmo muito boa.
O Skoob ainda está em versão beta, então incrementos como pesquisa por nome de autor e outras comodidades como possibilidade de organização dos livros dentro de cada estante pessoal ainda não estão disponíveis, mas já é bastante útil e divertido.
Te vejo lá, hein? E me diz aí: o que você anda lendo?
O herói Tintin completa 80 anos de existência no próximo dia 10. Não sou fã, mas gosto bastante das aventura do jovem jornalista, apesar de seu extremo 'bom-mocismo' - chega a ser irritante, às vezes. De qualquer forma, além do argumento bem bom e elucidativo em termos históricos, o traço do belga Hergé é muito legal.
Por conta da efeméride, no Brasil serão lançadas a primeira e a última das 24 histórias escritas por Hergé, que morreu em 1983.
Mas o que eu estou mesmo aguardando é a chegada de Tintin às telonas, em 2010. A parceria entre Steven Spielberg e Peter Jackson, de 'O Senhor dos anéis', deve render três histórias do intrépido repórter e seu cão Milu. Spielberg dirigirá a primeira e Jackson, a segunda. A terceira história ainda não tem diretor definido. Segundo conta, Spielberg analisa esse projeto há 25 anos o que só reforça a expectativa de que será mesmo um trabalho bem feito. Ao que tudo indica, será animação em 3D, feita pelos estúdios DreamWorks.
Eu preferia um filme mesmo... Já pensou? O queridinho de do diretor, Shia La Bouf até daria um Tintin bacana em live action, né não?
Impressionante como essas viradas de ano me fazem perceber a passagem do tempo. Nessa época eu noto meu envelhecimento. Mais até que nos dias de aniversário...
Ah, que fique claro! O uso de 'envelhecimento' aqui não tem tom de lamúria ou de queixa. Aliás, não tem a menor carga ruim. Acho envelhecer uma das coisas mais legais da vida. Só não envelhece quem morre. Então digamos que prefiro mesmo envelhecer.
E de quebra no caminho vou encontrando amigos e pessoas bacanas - às vezes nem tanto, mas em 2008 nem me lembro de uma dessas... Pelo contrário. Foi um ano incrível do ponto de vista das amizades. Mesmo para as que já tinha de longa data. Em 2008 me aproximei ainda mais de cada pessoa importante pra mim.
Olha, pensando agora, posso, com certeza, afirmar que 2008 foi dos melhores anos da minha vida! Dei muuuita risada, muita mesmo! Aprendi um montão de coisa com diferentes pessoas.
Putz, acabo de me dar conta que foi du caralho!
E falando em amigos, foi praticamente em 2008 que conheci minha melhor amiga: a Sofia. Ela chegou 10 dias antes de acabar 2007 e por isso considero que foi 2008 o ano no qual nos tornamos amigos. Pô, só por essa já posso considerar um ano 'hitórico'. E olhe que teve muito mais...
Na noite de amanhã vou mais uma vez reparar na misteriosa magia que adentra corações entre 23h59 do dia 31 de dezembro e 0h01 de primeiro de janeiro.
É misteriosa, mas também poderosa. Tem uma áurea de renovação e faz as pessoas mexerem até onde não querem. "Esse ano vou fazer tal coisa". Sabe essas autopromessa? Pois é... Gosto muito delas. Acredito, aliás, que autopromessas são o tipo com o qual nos sentimos mais comprometidos. Caralho, se eu não cumprir o que prometi a mim mesmo vou honrar compromisso com quem?
E isso é muito bom. Há sempre coisas que queremos mudar e o empurrãozinho de uma autopromessa durante os pulinhos de sete ondas ou a explosão de fogos de artifício no céu é sempre providencial.
Também gosto de repensar o que fiz e o que quero fazer. Em onde comecei isso tudo e onde é que vou acabar.
Pra variar, sempre gosto do que fiz e ainda mais do que vou fazer. E também percebo que não sei onde comecei e muito menos onde vou acabar. Só sei que rir continua sendo o melhor remédio... Opa, alguém já disse isso em 2008 anos de cristianismo, né não?
Bom, então fiquemos por aqui. Espero mesmo que 2009 seja ainda melhor e que eu possa rir tanto quanto ri até agora. Melhor que isso. Que eu possa amar a vida ainda mais do que amei até agora e seguir nessa direção que, honestamente, não sei bem qual é, mas se soubesse não ia ter a menor graça, fala aí?
Bom 2009 pra você que viaja ou viajou com o astronauta solitário. Nos vemos em 2009 e cuidado com seus desejos e autopromessas, hein? Eles podem se realizar em 2009!
Sensacional! Se você assistiu a Thundercats na sua infância e gosta de cinema também vai achar.
Reza a notícia - elas são cada vez menos confiávies hoje em dia, pra minha tristeza profissional - que um sujeito fã dos felinos superpoderosos do desenho passou um ano coletando e editando imagens de trechos de filmes, para montar o que seria um trailer da versão cinematográfica de Thundercats.
Olha, eu gostei muito. Achei bem bom, mesmo. Tanto que chego a desocnfiar de golpe de marketing hollywoodiano - não foi só o jornalismo, no ramo da comunicação, que se embrenhou em caminhos escusos - \o/
Bom, assista aí ao trailer e identifique os intrépidos Lyon, Phantro, Chitara e companhia na pele de astros como Brad Pitt, Vin Diesel, Hugh Jackman e Garfield... Garfield? Pois é... O Snarf agora deve gostar de lasanha...
Há até uma semana eu respondia aos que me perguntavam se a Sofia (já) estava andando que ela é praticamente uma fundista.
Bom, no sábado, na prévia do aniversário de um ano resolvemos experimentar os tênis dados há exato um ano, pela mãe de um amigo que voltou dos EUA. A mãe, não o amigo. E na verdade é mãe do padrinho que além de cumpadre é amigo, entendeu? Não importa. Dona Célia sabe agora que a Sofia gostou muito do presente!
Ah, então, e aí algumas pessoas começaram a perguntar o que era fundista.
Segundo o Aurélio...
fundista s m+f Esp Corredor especializado em provas de longa distância.
Então, a minha corredora de longa distância é um charme ou não é?
Tenho acompanhado a microssérie Capitu que a TV Globo exibe nessa semana. Sou fascinado pela criação de Machado de Assis. E entenda criação não como a obra - certamente fascinante, mas da qual conheço muito menos do que gostaria. Falo de Capitu mesmo. Criatura dissimulada e oblíqua. Menina de olhos de ressaca. Dom Casmurro foi meu primeiro contato com o autor. Foi-me, de fato, empurrado goela abaixo por uma professora do ginásio. E, ao contrário do que dizem, isso não tirou da obra o encanto. O começo foi difícil. Mas quando o autor é bom ele arrebata até o mais preguiçoso dos leitores.
Me lembro que ficava extasiado com as descrições da tal menina e me identificava mesmo com a paixão adolescente do Bentinho. Fui gostando cada vez mais e quando me dei conta devorava o livro, em busca de saber a sina do personagem-narrador e suas desventuras no amor e na amizade. Depois de adulto reli o livro. Gostei ainda mais. Dessa vez, me prendeu o estilo do grande escritor. Sem as identificações juvenis, pude notar que o velho Machado é mesmo um mestre na escolha das palavras e entendia da alma humana com poucos pscicólogos são capazes.
Dito isso, vamos à série. Simplesmente S E N S A C I O N A L. A montagem, o figurino, a fotografia. Tudo, digno dos melhores elogios. O diretor Luis Fernando Carvalho, de Lavoura Arcaica, e responsável pelos melhores seriados produzidos na Globo nos últimos tempos - Hoje é dia de Maria e A pedra do reino - acertou a mão em tudo. Absolutamente tudo.
Os recursos de montagem, com cenário único, que parece mesmo ser uma lembrança vaga e perdida no tempo, fazem o telespectador mergulhar na história. O diretor foi muito feliz ao optar por deixar as palavras de Dom Casmurro exatamente como na obra. Assistir aos dois primeiros capítulos foi como reler o livro. Cada palavra escolhida pelo maior escritor brasileiro foi preservada de maneira inteligente. Por melhor que fosse a adaptação, Luis Fernando Carvalho fez a melhor opção que poderia ter feito e deixou em Dom Casmurro o que a obra tem de absolutamente genial: o texto de Machado.
Mas a série vai além do texto. A escolha do elenco, por exemplo, é outro trunfo. Apostando em atores pouco conhecidos, o diretor brinda o expectador com um Dom Casmurro genialmente machadiano. Ponto alto. O ator Michel Malamed - prazer em conhecê-lo - dá ao personagem -narrador a carga ideal de humor, amargura e fragilidade.
O importante personagem do Agregado José Dias, na pele de outro - pra mim, completamente - desconhecido, o ator Antonio Karnewale, é outro destaque. Também dissimulado. Calculista e interesseiro. É a exata personalidade (descrita?) elaborada por Machado. O jovem Bentinho e seus familiares são também muitíssimo bem interpretados.
A menina Capitu é mesmo um Capitu (lo) à parte. Não poderia haver escolha mais acertada. Letícia Persiles é a verdadeira encarnação de Capitu. Me lembro de ter lido uma vez - talvez escrito pelo próprio Machado - que o romance não deveria ter o nome de Dom Casmurro e sim de Capitu. Pois a microssérie faz essa justiça e Letícia a atesta com graça e competência. Basta assistir a qualquer trecho com a menina pra ter essa certeza. Ela rouba a cena. Sem muito esforço. Nasceu com olhos de ressaca e faz o ar dissimulado como a Capitu de minha mente fazia durante a leitura da obra.
A direção acerta também no tempero pop que deu à obra. Li que o diretor quis assim para que os jovens entendessem que Machado não é chato nem sisudo. O motivo é até nobre, mas o resultado - que de fato é o que importa - pra mim foi sensacional.
Esse tempero, além de estar na maquiagem, no figurino e na tatuagem de Capitu, aparece na trilha sonora. Perfeita.
Quem estava à frente da TV esperando pela primeira imagem da adaptação certamente se surpreendeu com as imagens envelhecidas e as guitarras distorcidas de Jimi Hendrix. Uma maneira peculiar - e muito eficiente - de transportar o telespectoador para as angústias e amarguras do narrados Dom Casmurro prestes a entrar em cena.
Outra bem escolhida na trilha é Elephant Gun, do combo Beirut, que faz pano de fundo para a as aparições de Capitu. Falando, é difícil entender porque escolher a música de um americano, Zach Condon, e sua trupe que mistura folk e música do leste europeu, para cenas de amor juvenil entre a estrela da microssérie e o (ainda) angelical Bentinho. Se quiser, entra aqui ó http://bluesmen-worldmusic.blogspot.com/2008/10/beirut-lon-gisland-ep.html , baixe o CD e ouça. Você vai entender perfeitamente.
E por falar em entrar, o site de Capitu também é bem legal. Olha aqui ó http://capitu.globo.com/Capitu/0,38826,16142,00.html Dá pra ver algumas cenas, como o beijo de Capitu e Bentinho. Muitíssimo bem-feita e como já dito, não poderia descrever de melhor maneira o tal beijo citado no livro. Incrivelmente fiel a imaginação do leitor...
Façamos assim. Você lê isso:
Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitou, mas então com as mãos, e disse-lhe,—para dizer alguma cousa,— que era capaz de os pentear, se quisesse. —Você? —Eu mesmo. —Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim. —Se embaraçar, você desembaraça depois. —Vamos ver. E Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelhando. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei aalisá-los com o pente, desde a testa até as últimas pontas, que lhe desciam à cintura. Em pé não dava jeito:não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe quese sentasse. —Senta aqui, é melhor. Sentou-se. "Vamos ver o grande cabeleireiro", disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos, com muitocuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assimdepressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tactoaqueles fios grossos, que eram parte dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por desazo, outras depropósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidasde chita, e a sensação era um deleite. Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesseintermináveis. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia aindaesta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãosadolescentes na jovem cabeça de uma ninfa... Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. Ainda há pouco,falando dos seus olhos de ressaca, cheguei a escrever Tétis; risquei Tétis, risquemos ninfa, digamos somenteuma criatura amada, palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs. Enfim acabei as duas tranças.Onde estava a fita para atar-lhes as pontas Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um laço, retoquei a obra, alargando aqui, achatando ali, até que exclamei: —Pronto! —Estará bom? —Veja no espelho. Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas paramim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar dacadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela rosto a rosto, mas trocados, os olhos de uma na linha da bocado outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe queestava feia; mas nem esta razão a moveu. —Levanta, Capitu! Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eudesci os meus, e... Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam vi que Capitu tinha os seus no chão. Não meatrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso. atordoado, não achava gesto nem ímpetoque me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas... Não mofes dos meusquinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda nadiferença dos sexos.
Letícia é vocalista da banda baiana Manacá, que faz um som entre Cordel do Fogo Encantado e Mars Volta - assim está descrito no release do myspace, que mais parece um texto deTom Zé. Olha lá...
É isso. Vi só dois capítulos de Capitu e estou encantado. Com tudo. Inclusive com ela. Os personagens ainda vão entrar na fase adulta e a história está só começando, mas tenho certeza que o bruxo do Cosme Velho está muito feliz com essa interpretação de sua obra.
Mais do que digna para a homenagem em seu centenário de morte - nunca vou entender essa coisa de efeméride de morte, mas...
O ano oficial Machado de Assis, decretado por lei, tem, pelo menos na TV, um encerramento à altura da obra do escritor.
P.S.: O Dom Casmurro, da microssérie era a minha opção de ilustração, mas o olhos de ressaca definitivamente me capitu (raram)...
Há uns sete anos, mais ou menos em 2001, assisti a um show de Paulinho Moska, por conta do lançamento de "Eu falso da minha o que eu quiser".
Já tinha visto os shows dos discos "Contrasenso" e de "Móbile". Lembrava de ter gostado muito dos espetáculos dos discos anteriores, mas naquele dia saí enlouquecido com o show do cara.
"Eu falso da minha vida o que eu quiser" é muito bom e o Moska estava afiado.
Não bastasse isso, lá pelas tantas ele comentou que ia tocar "Nunca foi tarde", uma versão que tinha feito para a música de um sujeito americano, que tinha morrido havia pouco mais de cinco anos e que não era conhecido no Brasil. "Vale a pena ir atrás, porque o cara é mesmo muito bom", ele disse.
E começou a tocar isso aqui ó:
Sensacional, né não? No dia seguinte eu só queria chegar logo no trabalho, porque não tinha internet em casa, e procurar sobre o tal "americano morto". Não tive dúvida. Mandei um email para o 'fale conosco' do site do próprio Moska. Acho que ainda tenho a resposta, mas era mais ou menos assim: "Caro, o compositor em questão é Jeff Buckley e o disco se chama Grace. A música dele é "Lover, you should've come over".
Parti imediatamente em busca e consegui o tal disco. Sensacional. Jeff Buckley é de uma sensibilidade singular. Roqueiro e poético na medida certa. Canta muito bem e usa o falsete como convém, emociona qualquer um e tem umas peculiaridades nas harmonias que seduzem quem conhece. Fora o clima da música. Um órgão de igreja fazendo a 'cama' quando o vocal sobe e a poesia da letra atinge seu auge... Du caralho!
E no disco havia mais que isso. Uma cover de Hallelujah, de Leonard Cohen, é outra pérola. O único comentário sobre ela é: ouça!
Jeff Buckley é filho de Tim Buckley, um cantor americano dos anos 60, de voz suave e sorriso doce, ídolo de gente como Robert Plant. Reza a lenda que Jeff só conheceu o pai quando era adolescente e já tinha feito a opção por ser músico. Herdou a voz e a melancolia. E o sobrenome. E colocou tudo isso de uma vez em Grace, disco que lançou em 1994. Foi aclamado por crítica e público.
O prodígio cantor, com 28 anos, acabou desaparecendo da mesma forma meteórica com que surgiu. Enquanto preparava o próximo álbum, em 1997, marcou de encontrar a banda num local próximo a um afluente do Mississipi. Resolveu dar um mergulho antes de entrar para as gravações e nunca mais foi visto.
Seu único legado foi transformar uma parcela considerável do rock, que nunca mais foi o mesmo depois de Grace. Assista ao vídeo de "Lover, you should've come over" e vai me entender.
Sabe aquela amargura impressa no falsete do Thom York e que permeia toda a obra do Radiohead? Pois é... vem de Jeff Buckley.
Nessa semana, depois de ouvir bastante Moska, voltei a escutar o Grace e me apaixonei novamente. Por conta da relação com o Radiohead, também baixei o Kid A, disco que nunca tinha ouvido dessa banda. Eis que no sábado, ouço, de passagem, uma música de John Meyer e hoje, pra fazer esse post que você tá lendo, fui baixar um disco do cara e caí nesse site aqui ó: http://indicadiscos.blogspot.com/
O cara simplesmente resenhou exatamente o que ando ouvindo... Vou ter de baixar o Kings Of Convenience, que, confesso, não dei muita bola quando pintou...
A idéia é bem boa. Melhor do que o romance coletivo do Orkut que acabei desencanando de acompanhar.
O escritor Thales Guaracy é o personagem de um reality show 'inteligente' - a expressão é da Mona Dorf, do Trip Eldorado, por onde eu fiquei sabendo da história toda.
É assim: o romancista está, de terça a sábado, entre 11 e 19 horas, produzindo seu mais novo livro 'ao vivo' na Livraria da Vila. Os curiosos de plantão podem acompanhar a tarefa de perto e até dar palpites.
O livro ainda está no comecinho. Na verdade ele só escreveu o primeiro dia.
Hoje li o Dia 1 e gostei. O mote até me atraiu e o formato da coisa também. Mas depois que li a primeira parte me dei conta de uma metalinguagem implícita que me deixou ainda mais curioso.
O romance começa com a entrada do casal Flávia e Marson na cabana de uma cigana a fazer previsões e leitura de mão. Marson vai contrariado, pois acredita que o futuro é inexoravelmente consequência direta do que construímos e fazemos. Não acha que a previsão da cigana vá mudar alguma coisa. Aliás, nem acha que ela seja capaz de prever algo. O capítulo terminou com um suspense no ar. Ponto para o escritor.
Vou entrar à tarde para ver a sequência e 'descobrir', maravilhado, que o destino de Marson não está, de fato, na previsão da cigana e muito menos relacionado com o que ele fez ou construiu até então. Está na 'imaginação' dos leitores e curiosos que darão palpites pelo blog ou pessoalmente.
Já estou me programando para visitar a livraria...
Nunca esqueci a HQ "A piada mortal", do Batman. Li outros e gosto de vários. Mas esse me marcou. A tal piada mortal que aparece no desfecho é sensacional. Me fez ver as HQs de uma maneira diferente.
Batman é um de meus heróis prediletos. Traz no lado de fora o que muita gente tem por dentro. Perturbado, obscuro. Cruel.
"As 10 noites da besta", "O messias" e "O cavaleiro das trevas" são títulos do morcego que me impressionaram na adolescência. Gostei muito. De todos. Mas quando li "A piada mortal" dei uma pirada. Uma visão diferente das perturbações e loucuras do Coringa e da face dele diante de um espelho: o Batman. Recomendo todos, mas esse é mesmo muito bom.
Lembrei disso somente porque recebi hoje um link com outra piada mortal evolvendo a dupla. Achei mesmo muito bom. A convivência com o Coringa está deixando o senso de humor do Batman ainda mais afiado...
Nessa semana a bola da vez no MP3 a caminho do trabalho tem sido o disco "Pensar é fazer música", do Paulinho Moska. Antigo. Lá do começo dos anos 90, do tempo em que ele ainda usava o "Paulinho". Foi por esse disco que conheci o trabalho do Moska - em carreira-solo, porque curti muito nos 80 ele e seu Inimogos do Rei com a sua "Barata chamada Kafka". Qualquer dia eu posto alguma coisa do Moska aqui... Mas hoje ele só foi citado pelo título do álbum. Acabei de chegar na redação e o amigo Waltão me mostra uma notícia publicada na gringa sobre o o guitarrista Gary Moore estar sendo processado por plágio. Tá, isso acontece, às vezes, e a 'desculpa' dos músicos até procede: "A gente ouve uma coisa aqui, outra ali. Acaba tendo a 'inspiração' de uma melodia ou harmonia e não identifica de onde ela veio". Pois é. Ouvi a referida música e fiquei com o queixo caído. Dos casos de plágio que já vi - e já vi e ouvi muitos - achei dos mais gritantes. Simplesmente porque não se trata de 'sugestão'. É como cópia carbono. Deixei pra fazer o post nessa tarde e antes do almoço pipoca na rede um outro caso. Dessa vez, com repercussão bem maior, já que envolve o guitarrista Joe Satriani e os milionários do Cold Play - estes são reincidentes, mas não vem ao caso. O fato é que aí já é demais! Dois casos de plágio no mesmo dia? Hahahaha... A decadência da indústria fonográfica chegou à criatividade... Como o caso do Gary Moore é bem mais gritante na minha opinião, escolhi postar as duas músicas em questão. A do guitarrista irlandês é simplesmente "Still got the blues", seu maior sucesso na carreira. Ouça aqui ó:
Agora veja a música "Nordrach I" da 'lesada' e desconhecida banda da Alemanha chamada Judys Gallery. Na verdade, o grupo alemão é dos anos 70, mas só conseguiu gravar o disco nos anos 2000. A faixa, porém, foi gravada na época numa coletânea radiofônica... Como os caras de prog gostam muito de enfeitar antes de dizer a que vieram, deixe carregar o vídeo e vá direto à parte que interessa: a partir do momento 5:30...
Ah, você ficou surpreso? Então passa aqui ó: www.madmonsterland.blogspot.com e veja que o Waltão descobriu que a história entre Satriani e Cold Play ainda pode render muito... E não vai ser pro Satriani... Volto ao título do Moska e concluo: definitivamente, é preciso pensar mais.
Desde que a net é net a gente recebe putaria - tanta, que depois de um tempo perde a graça -, correntes - há mais de 10 anos recebo um maldito texto com a mensagem que a AOL vai depositar US$ 0,01 na minha conta (que ela nem sabe qual é) para cada pessoa a quem eu encaminhar a famigerada mensagem - e crônicas. Muitas delas. E geralmente atribuídas a autores de renome, que, quase sempre negam essa procedência. Veríssimo e Jabor são campeões nessa modalidade.
Hoje recebi um texto atribuído a Woody Allen. Não sei se é. Mas gostei mesmo da idéia. O mais legal é que fiquei com uma sensação de déjà vu. Acho que tinha recebido isso há tempos... De qualquer jeito, certamente à época não notei que a sacada é mesmo bem boa. E tem a cara do "Bukowski contemporâneo" que é Woody Allen - um velho safado... Também identifiquei um 'Q' das Memórias Póstumas, do Machado, e gostei bem... Aparentemente seria realmente mais fácil viver assim. Aparentemente...
A minha próxima vida
Woody Allen A minha próxima vida quero vivê-la de trás pra frente.
Começar morto para despachar logo esse assunto.
Depois acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a aposentadoria e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.
Trabalhar por 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo, e depois estar pronto para o secundário e para o primário, antes de virar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí viro um bebê inocente, até nascer.
Por fim, passo nove meses flutuando num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quarto a disposição e espaço maior dia a dia.
Tenho dedicado bastante tempo de meus pensamentos de astronauta solitário para entender as relação humanas. Relacionar-se com o outro é, definitivamente, a tarefa mais difícil nesse planeta. Noutro dia falava com um conhecido sobre isso. Trabalhei com ele na mesma redação há tempos. Uns 3 anos atrás, mais ou menos. E me lembrava que o cara era casado, apesar da pouca idade. Papo vai, papo vem e perguntei da esposa. Ele respondeu que tinha se separado. "Não dava certo. Era muito bom em alguns pontos, mas em outros não teve jeito", ele comentou. "Relacionamentos são difícies", eu disse, sem querer entrar em intimidades e nem dizer um "sinto muito", que, de fato, não sentia. Se alguém tinha de sentir era ele... "No meu outro casamento era o contrário. O que era bom nesse último era ruim lá. Em compensação o que era bom lá era justamente o ruim daqui", complementou. "Pois é. Relacionamentos são difíceis", tive de repetir. Não só pela falta de coisa melhor pra dizer, mas pela constatação do fato. Relacionamentos são difícies. Pra caralho. E não falo aqui somente dos amorosos. Falo de todos. Porque os problemas de relacionamentos partem de um mesmo ponto: cada um é responsável por 50% da decisão apenas. O resultado da interação entre você e o outro, seja ele sua mulher, sua namorada, seu amigo, seu patrão, afeta você diretamente. Entretanto, você só tem o domínio sobre metade das causas desse resultado. Boa parte de nossas frustrações vem justamente de esperarmos que o outro tenha a mesma reação ou pense como nós diante do mesma questão. Geralmente, não acontece assim. E simplesmente porque é outra pessoa, outra cabeça, outra mente. Outra maneira de reagir diante da mesma situação. Sem contar o fato de que essas interações acontecem simultaneamente e a todo momento. Ontem, diante dessas frustrações, resolvi dar um tempo e parar de pensar no problema. Desci pra tomar um café - até fumei um cigarro depois de muuuuito tempo..., brinquei um pouco com um texto particular e resolvi papear no msn com amigão.
"E aí, meu velho?" "Fala cara, tudo bom? Acabei de ser demitido"
Porra, o que se pode dizer pra um grande amigo numa hora dessas, além de um CARALHO em letras maiúsculas - ou 'caixa alta', pra não sair do jargão da profissão? Eu pedi a ele um currículo e comecei a acionar alguns conhecidos pra amenizar o problema. E enquanto fazia isso pensava comigo: a boa e velha interação com o outro agindo novamente. No caso, o outro foi o patrão. Você pode trabalhar, ser competente e querer o melhor para sua empresa. Se o patrão achar que você tem de ser demitido, você o será. Mesmo que não queira. Simplesmente porque você não tem o poder sobre essa decisão. O patrão tem. Há decisões sobre as quais você tem o poder e o patrão não. Nesse caso, a competencia é do patrão. Ponto.
Passei o restinho do dia tentando arranjar um trampo pro amigo e me conformando com minha falta de poder sobre as decisões dos outros em minha vida. As minhas decisões eu tomo. E banco. Nas dos outros posso, no máximo, opinar. E ainda assim, se solicitado, né?
Nessa manhã recebo o chamado no msn do baixista da minha banda, com a (certa pra ele) decisão de deixar o grupo. Porra, novamente me vi diante da grande questão. Que merda, não quero isso. Quero seguir com o conjunto, ainda mais agora que estava ficando bacana. Mas não é uma decisão minha. A minha eu tomei, que foi montar o grupo. A dele, ele tomou, que foi deixar o grupo. Apesar de a dele me afetar direta e 'nocauteantemente' não tenho o que fazer. Não tenho poder sobre as escolhas dos outros. Gostaria de ter, às vezes, mas não tenho.
Hoje é o aniversário da mamãe! Creuza, com eu a chamo. Aliás, é o nome dela... Tenho passado os últimos dias em boa companhia lendo "O amor nos tempos do Cólera", de Gabriel Garcia Maques. Ontem me peguei analisando o livro e lembrando do famoso "Cem anos de solidão", obra mais famosa do mesmo escritor. O que estou lendo agora me parece melhor, mas lembrar do "Cem anos..." foi bem bom. Imediatamente me veio à mente a imagem da matriarca Ursula. Grande mulher. Vivida. Forte e inabalável diante das (bem) duras pancadas da vida em Macondo. Quando li, há muito tempo, pensei até se Garcia Marques conhecia minha mãe. A Creusa é a Ursula da vida real. Uma mulher com determinação gigante e coração do mesmo tamanho. A determinação nela é bem peculiar. Para algumas coisas, deixa que aconteçam a 'esmo', sem fazer esforço... Mas pra outras. Botou na cabeça no meio dos anos 80 que teria uma casa própria e sairia do aluguel. Vi essa mulher mover o mundo. Entrou em movimentos populares, foi às ruas, lutou, invadiu, defendeu, acusou. Pra mim, uma nova mulher, bem diferente da dona de casa que eu conhecia até então... No começo dos anos 90 ela conseguiu a tal casa. Mora lá até hoje e quando fala do lar, tem um brilho no olhar. A aproximação dos movimentos populares lhe deu gosto e novo sabor à vida. Descobriu, aos 40, que tinha muito que fazer pelas comunidades ao seu redor. Os últimos 15 anos foram todos de dedicação a isso. Eu, confesso, enquanto morava lá, às vezes me sentia preterido aos de fora. A Creuza pegava parte da cesta básica que eu ganhava no emprego fuleiro e ainda dividia com pobres. No começo, me sentia injustiçado e chegava a comentar. Me ensinou, pela atitude, que ajudar a quem tem menos é o mínimo que podemos fazer. A sergipana que chegou em São Paulo nos anos 70 sem ter concluído o ginásio resolveu depois de ser mãe de família e dedicada esposa, que seria mais isso. Seria alguém na vida de outros. Resolveu estudar e levava tão a sério na época que eu ficava com verganha da minha preguiça em pegar nos cadernos... Começou desenvolver trabalhos voluntários de pedagogia e assistência social. Hoje, ganha a vida com isso. Vive com o Cidão, meu pai, e está muito feliz. Quem a viu nos meus tempos de meninos, como dona de casa, e a vê hoje tem a certeza de que a Creuza cresceu absurdamente com a vida. Aproveitou cada brecha e lutou pra ter sua importância no mundo em que vivemos. Não há eleição em São Paulo sem que candidatos disputem a preferência da Creuza e seu apoio. Além da infuência na comunidade, ela trabalha. E trabalha duro. Já falei pra parar com isso... Mas a cada dia me convenço de que isso é o que a mantém feliz. Tomou muita pancada da vida e nunca desistiu. Ela diz que completa 56 anos. O Cido, meu pai, jura que ela é "gato". Pela cédula de identidade ela faz é 58, mas jura de pé junto que o registro com data retroativa foi um recurso para poder trabalhar mais cedo e ajudar no sustento dos outros 11 irmãos lá em Sergipe. Pois é...a mulher pegou pesado no batente desde cedo. E dizem mesmo que o trabalho enobrece, né? A Creuza é uma mulher nobre. Uma grande mulher que me ensinou a lutar e não desistir mesmo quando tudo parece bem dificil. Parabéns, mãe! Te amo e admiro muito!
Na foto, a Creuza aparece com as três coisas que ela mais ama nessa vida: o Cidão e as netinhas Duda e Sofia.
Canhoto, baixa estatura, pele não-branca, não-católico, filho de nordestina, morador da periferia, simpatizante da esquerda. Sempre gostei de brincar com os amigos - só com aqueles que riem COM O Heverton - que a sociedade não foi feita pra mim. "Eu não pertenço a esse mundo feito para os direitos, de direita, brancos, católicos, de linhagem européia, moradores dos bairros ricos, com suas contas bancárias recheadas e seus sorrisos de plástico". O amigo Marcelo Favalli ria muito comigo dessa piada e sempre gostava de frisar. "Cara, é por isso que te acho um vencedor. Com todas essas adversidades e você conseguiu se formar, virar jornalista e ser um cara bacana". Bom, como eu disse, ele é meu amigo. MUITO amigo, você já deve ter notado - cara bacana?, aff... O mais legal é que eu sempre respondia: "Marcelo, esse esforço que faço não é mérito meu. Isso se chama tentar sobreviver. Ou me esforço ou me fodo. É só isso e é igual pra todo mundo". Mas ele sempre rebatia: "Que nada. Você é um exemplo". Pois, bem. Tô aqui trabalhando em pleno feriado da Consciência Negra. Acabei lembrando do Obama e de sua eleição magnânima. Isso sim é um exemplo. Noutro dia li um sujeito dizendo que a comparação de Obama com Lula não faz sentido e que para o americano a coisa foi muito mais - infinitamente - difícil. Eu concordo. Não bastasse o nome árabe e o islâmico, não bastasse esses nomes serem Obama - muito próximo de Osama - e Hussein - exatamente o mesmo do Saddam - o cara é negro. Negro nos EUA, diga-se. É bem diferente de ser negro no Brasil. As oportunidades e desafios são realmente comuns nos dois países, mas você já ouviu falar de casas incendiadas no Brasil? De criaturas - não vou usar 'gente' de propósito - vestindo capuzes brancos e exalando ódio a negros? Já viu no Brasil alguém dizer que aquele banco do ônibus não é pra negro sentar? Pois é... A coisa lá é (foi?) bem mais áspera. Outro lance bem impressionante na eleição do Obama é analisar os pontos nos quais o cara pretende (ou esperam que) mexer. Guerra. Cuba. Mataram Kennedy por coisas como essas. E Kennedy era branco. Mas o Obama tem fibra. Tem garra. Olha onde o cara chegou! Naquelas brincadeiras com o Marcelo, outro que gostava de tirar uma onda era o Chico Prado, amigo querido, ele sabe!. Os dois, brancos demais pra meu gosto - o Marcelo chega a ser transparente -, me chamavam de "negrinho", em tom de farra. SEMPRE pra bater na desconfortável tecla de "ser um exemplo e blá blá blá". Eu dizia que não. E agora posso dizer mais: se queriam um exemplo de superação e obstinação, Obama está aí. E o cara tem a gana... No sangue. Não é um post pra me comparar ao cara. Longe disso. É um post pra dizer que me identifico com sua coragem diante da provável derrota. Já viu alguma foto dele com o semblante pesado, preocupado? O cara tá sempre sorrindo. Esperemos que depois da posse esse sorriso que transmite tanta confiança permaneça em seu rosto. Admiro o figura. Sorriso na cara mesmo diante do mais desconfortável embate. Nunca quis ser presidente. Nem dos EUA. Mas Obama não é só isso. Desde que começou a ser notado mundialmente, não li um texto a seu respeito que deixasse de citar sua autobiografia e TODOS. Isso mesmo, todos os textos sempre ressaltavam: "e ele escreve muito bem". Fiquei a fim de ler a tal biografia. Tá na lista. Por enquanto, Obama é pra mim um exemplo a ser seguido. Não para chegar à presidência. Mas para escrever bem e, principalmente, nunca perder o sorriso da cara.